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Uma explicação necessária

Esta revista tem o nome do chamado pai do teatro português: Gil Vicente. E quando se comemoram os 500 anos desta modalidade literária e ar­tística entra a revista no 76° ano de existência.

Como tem a sua sede em Guimarães, onde se pressupõe que Gil Vicente tenha nascido, era de admitir que a autarquia tivesse já um pro­grama comemorativo condigno com a efeméride. Lamentavelmente nem tem programa, nem sequer tem o bom senso de valer-se dos órgãos apropriados para que, em sintonia, possam assina­lar o acontecimento que deverá ter carácter nacional.

Dá Deus as nozes a quem não tem dentes. Um aforismo velho com sim­bolismo intemporal. Guimarães tem vindo a ser palco de uma dramática destruição cultural. A última década do século e do milénio, em vez de ter servido para consolidar as estruturas culturais que foi edifi­cando ao longo de tantos anos, deu-se ao luxo de escavar os ali­cerces do património até aí existente. Nem um único programa, nem uma única estrutura, nem um único espectáculo que salvem uma década de vazio total. Porque, para além de nada programar de novo, consentiu na delapidação do que de bom se vinha fazendo.

É que Guimarães não é uma cidade qualquer. Até 1990 era tida como a quinta mais importante do país, em termos económicos, em produção cultural, em número de habitantes.

De repente foi ultrapassada por uma série de cidades como, por exem­plo, Braga que sempre andara atrás da cidade-berço.

Perdeu a Euroarte que se lançara em 1989 e que fora aquilo que de melhor se fizera em Portugal em matéria de artes plásticas.

Perdeu o Show moda outra novidade que fez do coração do burgo afon­sino um mar de gente anónima, numa semana de glória nocturna.

Perdeu as Quartas-Feiras Culturais, no histórico Teatro Jordão que, durante quase três anos, promoveram artistas locais e nacionais, deli­ciando o público que começara a ganhar hábitos de vida construtiva nas horas de ócio.

Perdeu o Saber é Giro, como perdeu o Movimento Jovem, que tanta projecção tiveram nos jovens que são hoje adultos e suspiram por programas que criaram marcas.

Na tentativa de ofuscar esses anos de animação cultural a sério, o responsável político alardeou a mudança de sede do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta com a alegação de que as instalações eram más e inacessíveis à consulta.

Volvidos onze anos, tudo permanece na mesma. E o poder político res­ponsável por este cataclismo cultural nem sequer foi capaz de saber programar um concurso público que vingasse. Como única e condenável, por bizarra solução, entregou a obra por ajuste directo, muito mais cara, morosa e prejudicial aos fins em vista.

Para cúmulo de tão nefasta inactividade, permitiu-se extinguir o Boletim de Trabalhos Históricos que Alfredo Pimenta criara e se manteve, digno dos pergaminhos da cidade, até 1990.

Não menos hediondo foi o crime cultural que levou ao encerramento do Teatro Jordão, uma referência positiva na vida das gerações que desde há 60 anos passaram pela cidade berço.

O artesanato que tinha o seu epicentro nos históricos fornos da Cruz de Pedra, virou negócio de políticos menores. E até o bronze que há mais de um século constituía o orgulho da portugalidade, simbolizada na Estátua do rei Fundador, sabiamente interpretada pelo genial Soares dos Reis, deu lugar a um OVNI, de João Cutileiro que, mais do que servir a cidade com uma nova versão de Afonso Henriques, já de si polémica, serviu o autor e o correligionário que nesta derrocada sis­temática hipotecou a histórica cidade.

É neste contexto que a «Revista Gil Vicente» (já que todas as vozes que deveriam ser livres estão anestesiadas pela ditadura democrática) se ergue, a denunciar tão aterrador destino. É uma publicação modesta, como o orçamento de quem a paga. Mas orgulha-se de gritar, bem alto, contra os traidores que, como aves de rapina, vêm devorando o orgulho colectivo da capital histórica de Portugal.

O director